20/05/2022 às 18h03min - Atualizada em 20/05/2022 às 18h03min

Dança Negra na Bahia é tema de documentário dirigido por Zebrinha.

Filme trará entrevistas e registros inéditos, além de denunciar o racismo que limitou trajetórias de artistas negros.

Por Van Carvalho
Fotos: Divulgação


Um dos mais importantes nomes da dança do Brasil, o dançarino e coreógrafo José Carlos Arandiba, mais conhecido como Zebrinha, está à frente de um documentário que registra a memória da Dança Negra na Bahia. O filme é pautado pelas vivências, memórias e saberes das mestras e mestres, com entrevistas, performances e importantes registros guardados em imagens de arquivo.

O filme foi todo gravado em Salvador, no mês de março, e a previsão é que o lançamento aconteça em novembro deste ano. Zebrinha é idealizador, diretor e roteirista do projeto e conduz as entrevistas com artistas responsáveis por elevar a dança da Bahia ao reconhecimento nacional, como Amazonas (Altair Amazonas e Silva), Nadir Nóbrega, Clyde Morgan, Inaycira Falcão, Edeise Gomes, Edleuza Santos, Senzala, Luiz Bokanha, entre outros.

O público poderá conhecer como esses artistas foram protagonistas de uma série de movimentos, a exemplo dos grupos Viva Bahia, Frutos Tropicais, Olodum Maré, e do fortalecimento da Escola de Dança da UFBA (Universidade Federal da Bahia). Na década de 1970, o afro-americano Clyde Morgan, um dos entrevistados, foi quem introduziu a dança negra na estrutura de ensino de uma das primeiras escolas de nível superior em dança do Brasil. O primeiro homem a estudar nesta Escola de Dança da Ufba foi Raimundo Bispo, o Mestre King, um dos homenageados pelo filme Memória da Dança na Bahia.

“Conhecer a história na voz de protagonistas é um trabalho de pesquisa importante e fundamental para a preservação da memória da dança negra. Dar visibilidade ao protagonismo negro no Brasil é também aproximar toda a população de suas raízes. É entender heranças e criações fundamentais nas nossas práticas e que não encontramos explicações nos livros”, explica Zebrinha, que possui mais de quatro décadas dedicadas à dança.

O projeto é realizado em cooperação com a Fundação Pedro Calmon e Secretaria de Cultura da Bahia, com produção da Modupé Produtora, produzido por Zebrinha, Susan Kalik e Thiago Gomes. Com roteiro de Zebrinha e Susan Kalik, fotografia de Gabriel Teixeira, trilha sonora original de Jarbas Bittencourt, com Thiago Gomes, como montador e diretor assistente.

Experiências internacionais, além do teatro e da televisão

Atualmente compondo o júri técnico do quadro Dança dos Famosos, do Domingão do Huck (Rede Globo), Zebrinha é diretor artístico de dois importantes grupos da cultura baiana: o Bando de Teatro Olodum e o Balé Folclórico da Bahia, uma das companhias de dança mais aclamadas do mundo.

Ele é formado em dança clássica e moderna no StadeliykConservatorium en dans Academie te Arnhem (Holanda), onde também lecionou, e no Alvin Ailey American Ballet Theater, em Nova Iorque (EUA). Em Paris, foi professor na Academie Internaciole  de Dance, no Project Studio, em Munich, e na Bélgica, deu aula na Federatie FriyTiyed. Como solista, atuou no IntrodannsParadis Latin, em Paris, no Alcazar de Paris e no Ballet de MonteCarlo. Atuou e dançou em shows com artistas consagrados tais como Joel Grey, Ben Vereen, Liza Minelli e Tina Turner.

Foi coreógrafo da novela Lado a Lado e da série Mr. Brau, produzidas pela Rede Globo de Televisão, além do musical D. Ivone Lara e dos espetáculos O Jornal, com direção de Lázaro Ramos e Exú (Cia de Teatro NATA). Foi indicado ao prêmio Shell pelo espetáculo Candaces(RJ), e recebeu o Prêmio Braskem de Teatro pelo espetáculo Bença (BA), um dos muitos espetáculos do Bando de Teatro Olodum que ajudou a montar.

Documento divulgará a história da dança negra na Bahia desde a década de 1940

“Aprender com nossas mais velhas e mais velhos sempre faz parte do legado e tradições africanas e por isso os ensinamentos dos entrevistados precisam ser transmitidos para as novas gerações. Todos foram dançarinos e hoje são coreógrafos, pesquisadores e professores que ainda cultivam suas raízes mais profundas na busca pelo conhecimento”, afirma a roteirista e produtora Susan Kalik.

Susan é roteirista, diretora e sócia, ao lado de Thiago Gomes, da Modupé Produtora. A empresa baiana produziu mais de trinta espetáculos teatrais, dez curtas e “Memória da Dança Negra na Bahia” é o quarto longa documentário da empresa, que é produtora de filmes como “Do que aprendi com minhas mais velhas”, sobre como se aprende e se ensina a fé no Candomblé, “Cores e Flores para Tita”, sobre a transgeneridade, atualmente em exibição no Canal Brasil; “O Primeiro Beijo”, que será lançado no próximo ano, sobre mulheres negras baiana e seu enfrentamento contra a droga do século: o crack,  e “Bando, um filme de”, que faz um importante registro sobre os 30 anos de trabalho do Bando de Teatro Olodum.

Documentário será referência para o ensino da dança

Além das entrevistas também foi possível digitalizar acervos pessoais como fotos, vídeos, prêmios, lembranças e objetos que ajudam a contar essa história. A memória que está sendo preservada no documentário não foi registrada pela imprensa, pesquisadores ou instituições locais. Trata-se de um universo complexo de informações organizado a partir dos depoimentos dos mestres, que vai contribuir para a formação de novos dançarinos que terão acesso a essas referências.

É o que acredita a dançarina, coreógrafa e professora da UESB (Universidade do Sudoeste da Bahia), EdeiseGomes. “Considero essa produção um lugar de reencontro com a nossa ancestralidade. Uma oportunidade de apresentar as diversas danças negras e suas epistemologias, seus modos de pensar referenciados por essas grandes trajetórias. Um projeto como esse tinha mesmo que ser conduzido por Zebrinha, um artista incrível que nos mostra como o corpo negro é discurso, é fala e tem história”, desta Edeise.

Tom de denúncia

“A cultura e as artes negras, com suas tradições, hábitos, crenças e comportamentos são facilmente esquecidas por ser pouco registrada ou por ser contado apenas pela ótica do branco. Na Bahia, o estado mais negro do Brasil, não é diferente, e temos comumente não registrados, e por isso, facilmente esquecidos, os feitos e conquistas do povo negro”, aponta Zebrinha.

Zebrinha afirma que sempre contou sua própria história através da dança e nutria o desejo de contar as histórias de outros artistas negros como ele. “Até que um dia eu encontrei a dançarina Amazonas, no Centro de Salvador. Uma mulher maravilhosa e uma artista importantíssima para a dança, pioneira, em um momento ainda mais difícil para as mulheres negras e para toda a população negra. Ela sempre foi altiva, corajosa, enfrentando o racismo e o machismo. Por conta de histórias como a de Amazonas eu decidi tocar o projeto deste filme”, detalha Zebrinha.

“O filme traz muitas histórias inspiradoras de resistência, coragem e crença na arte. Mas também abordará o racismo que limitou muitas trajetórias. Não quero amenizar o discurso. O documentário também terá um tom de denúncia”, antecipa o diretor.

 SERVIÇO:

MEMÓRIA DA DANÇA NEGRA NA BAHIA (Doc, 2022, 80 min)

Memória da Dança Negra na Bahia é um filme documentário construído através da memória viva dos percussores da Dança Negra na Bahia. Uma DENÚNCIA POÉTICA apresentada através das vivências e saberes das Mestras e Mestres protagonistas da Dança Negra na Bahia. O filme conta com entrevistas, performances e importantes registros guardados em imagens de arquivo. Documentário idealizado e dirigido por  Zebrinha. 

Com: Altair Amazonas e Silva, Clyde Morgan, Conga, Edeise Gomes, Edileuza Santos, Elisio Pitta, Flexa II, Inaicyra Falcão, Ivete Ramos, Jorge Silva, Lindete Souza, Luiz Bokanha, Luiza Meireles, Macalé, Martinho Fiuza, Nadir Nóbrega, Nildinha Fonsêca, Senzala, Vânia Oliveira e Zulu Araujo.

Idealização e Direção: Zebrinha

Roteiro: Zebrinha e Susan Kalik

Produção: Modupé Produtora

Previsão de estreia: novembro de 2022.


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